terça-feira, 21 de julho de 2015

POR QUE VOCÊ GOSTA DE VÊ PASSARINHO?

Certo dia uma pessoa me perguntou por que eu gosto tanto de passarinhar. Respondi a ela e ela entendeu meus motivos, porém, essa pergunta me instigou e refletir um pouco mais a respeito deste assunto. Não posso dizer que são os mesmos os motivos que levam as pessoas que gostam de observar aves a sair de suas casas, muitas vezes numa madrugada de sábado, domingo ou feriado após uma semana intensa de trabalho e ir à busca de, simplesmente, observar aves em seu habitat natural.

Outra situação é que, quando digo habitat natural, estou falando de matas, florestas, cerrados, savanas, veredas, campos limpos e sujos, rios, mares e canais, brejos, lagos, lagoas, dentre outras áreas onde existe a possibilidade de encontrar aves livres que possam ser observadas e mantidas livres. Inerente as característica destes locais de observação de aves bem como das próprias aves e que, quase sempre se fala também de longas caminhadas, barro na bota, rasgos nas roupas, subidas e decidas, carrapicho, calor ou frio, mosquito, mutuca, muriçoca, dentre outras situações que esta saudável prática envolve. 


Mas, posso apenas falar de mim, daquilo que me movem em realizar e enfrentar as coisas que falei para observar aves, pois entendo que cada um tem um motivo para fazer aquilo que gosta e lhe dá prazer.  Uns o faz por necessidade, outros por hobby, outros pelo motivo de entender que lhe faz sentir bem e revigora suas energias e outros porque gostam de se encantar com os encantos que a Natureza nos proporciona e muitas vezes, ou quase sempre, passam despercebidos à maioria das pessoas.

Eu era uma das pessoas que não dava muita importância às aves, muito menos sabia de suas funções no equilíbrio ecológico, além é claro do poder que elas têm de tornar as manhãs mais suaves com seus cantos melodiosos. Sinceramente, antes de voltar minha atenção também para este “mundo” eu não o via e ouvia, não conhecia a abundancia de sons e cores que envolvem o mundo dessas criaturas voadoras.  E posso dizer que é bem envolvente, fascinante e encantador.


Comprei uma câmera fotográfica, semiprofissional com detalhes de configuração que eu nem imaginava para o que servia, não era das melhores, porém, fez parte deste começo. Agora entendo que passarinhar faz também que fiquemos mais ligados, até mesmo no avanço tecnológico. Um dia cheguei mais cedo no trabalho, e tenho a felicidade de trabalhar dentro de um parque urbano de Campo Grande no Estado de Mato Grosso do Sul, chamado, Parque das Nações Indígenas, a fui fotografar algo. 

Atrás da nossa sede, existe um bosque com diversas espécies de árvores, era mês de julho e quase todas estavam com poucas folhas.  Notei no topo um galho com dois pássaros e fotografei. Posso dizer que esta não foi uma simples fotografia, a pesar de não ter muita qualidade, foi ai o start para eu descobrir o mundo da Observação de Aves que eu nem sabia que existia. Ao chegar em casa, como já conhecia a espécie por ser bem comum, um Bem-te-vi, pensei o seguinte, o que faço com esta foto?


Esse pensamento me levou ao movimento, fui pesquisar a respeito da espécie, descobri que seu nome comum varia de lugar para lugar, que só existe um nome científico para ela no mundo inteiro, Pitangus sulphuratus, que vem do Tupi e significa, grosso modo, “Papa-moscas Amarelo Enxofre”, se alimenta de insetos e frutos, que emite sons diferentes de acordo com a ocasião e necessidade, que apresenta, em determinadas situações, principalmente de stress, um leque amarelo em sua cabeça, que possui varias subespécies, que se distribui por todo Brasil e em outros países das Américas, que existem lendas e crendices a seu respeito, algumas até ligando a ave como um dos responsáveis por indicar com seu canto, Jesus a seus carcereiros, que pode apresentar indivíduos com a plumagem “Luteinismo” ou “Flavismo”, dentre outras informações interessantes a respeito de, só uma das mais de 10.000 espécies catalogadas no mundo.


Bem, a partir daí comecei a conhecer um mundo rico e cheio de novidades, que mexem com o intelectual de quem se interessa por ele. Logo fui convidado por um amigo para fazer parte de um grupo que estava se criando chamado Clube de Observadores de Aves de Campo Grande – COACGR e comecei a passarinhar junto com os outros membros. Agora inicia outra qualidade espetacular desta prática, a aproximação entre as pessoas gerando amizades.

O que posso afirmar é que venho conhecendo pessoas, ampliando minhas amizades e, principalmente, desmistificando alguns conceitos pré-concebidos que é sujeito se ter por um ou por outro, ou seja, no final estou conhecendo melhor as pessoas e novos fazendo amigos.


Por que eu gosto de passarinhar? Esta é a pergunta que me levou a escrever este texto, e a resposta, no meu caso é: porque me faz bem e gosto de descobrir e observar, que neste caso significa ver e ouvir, os encantos da Natureza.

Comecei então a buscar mais informações a respeito da observação de aves, já que gosto é preciso conhecer. Inicialmente era realizada apenas por pesquisadores ornitólogos. Desde então vem crescendo a cada dia no Brasil e no mundo em número de adeptos, sendo eles, idosos, adultos, crianças, homens e mulheres que gostam de ocupar seu tempo livre com atividades produtivas, seja em grupo ou, até mesmo, individualmente.


Com esse crescimento, as coisas foram surgindo, ficando mais acessível, comum, como é o caso do nome com a qual a observação de aves foi carinhosamente batizada pelos praticantes: “Passarinhar”. Nosso país, por conta de sua dimensão continental, apresenta diversos biomas em seus limites, cada um com uma avifauna diversificada e encantadora, que vem despertando interesse de “passarinheiros” do mundo todo em vir conhecer nossas belezas aladas. 

Passarinhar não se resume apenas em ir ao campo observar ou fotografar aves, podemos dizer que esta é uma de suas fases, que começa na decisão de onde ir e qual(s) ave(s) se pretende observar. Partindo desta ideia, é necessário que o observador faça um planejamento de sua saída a campo, bem como, do material que irá utilizar. Durante a passarinhada, existem algumas técnicas que auxiliam na observação que podem ser utilizadas, sendo que, algumas delas como o Playback, que significa reproduzir mecanicamente o som de determinada ave buscando trazê-la para perto e fazer os registros, deve ser utilizado com parcimônia visando o bem-estar da ave. Ao final, quando voltamos para casa, é a hora de identificar as espécies, catalogar e pesquisar para conhecer mais profundamente seus hábitos, etc.


Desta maneira, entende-se que a observação de aves é uma prática que favorece o desenvolvimento da mente e do intelecto, desenvolvendo uma consciência sistêmica e ambientalmente positiva da inter-relação e interdependência do ser humano com a natureza, podendo aflorar no caráter do praticante uma consciência melhorada da necessidade de conservá-la para as gerações futuras.

Desenvolve e aprimora também a parte fisco e motora, ou seja, o corpo também é favorecido pelos exercícios de caminhada ao ar livre, pelo campo ou mata fechada, contribuindo para uma melhor mobilidade, coordenação motora, funções respiratórias, atenção, visão, dentre outros. O chamamos de espiritual também se fortalece por meio da interação com a natureza, pela variedade de cores, cantos e movimentos das aves que encantam os observadores, afugentando o estresse, relaxando o corpo, a mente e fortalecendo o espírito e tornando as pessoas mais sensíveis, calmas, tranquilas e por que não dizer, menos ranzinza.


Finalizando, passarinhar desenvolve uma consciência holística, ou seja, o praticante passa a ter uma imagem única da natureza, da sua função e do papel de cada coisa, seja animal, vegetal ou mineral no funcionamento e equilíbrio desse (eco)sistema, que chamamos de planeta “Terra”.




GEANCARLO MERIGHI

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